Comunicados de Imprensa

Uma tragédia anunciada: aumento de infecções por COVID-19 no território Yanomami

Um relatório inédito detalha o avanço da pandemia da COVID-19 na Terra Indígena Yanomami, sugerindo que um em cada três indivíduos já pode ter sido infectado pelo novo coronavírus.

Compartilhar

PARA LIBERAÇÃO IMEDIATA
19 de novembro de 2020

ORGANIZAÇÕES YANOMAMI E YE’KWANA E UMA REDE DE PESQUISADORES LANÇAM RELATÓRIO INÉDITO QUE DETALHA O EVOLUÇÃO DA PANDEMIA NO TERRITÓRIO INDÍGENA, SUGERINDO QUE UM EM TRÊS YANOMAMI JÁ TER SIDO INFECTADO PELO NOVO CORONAVÍRUS

  • Houve um aumento no número de casos em mais de 250% nos últimos três meses na Terra Indígena Yanomami.
  • Menos de 4,7% da população total foi testada
  • 10 mil Yanomami e Ye’kwana podem ter sido expostos ao vírus; mais de um terço da população.
  • Linha do tempo mostra sequência de abusos contra os Yanomami e Ye’kwana

LEIA O RELATÓRIO COMPLETO AQUI

Estado de Roraima, Brasil – “Por dentro não estamos bem. Estamos todos doentes. Nossa floresta adoeceu” – depoimento de um Yanomami da região de Kayanau, em Roraima, Brasil, falando de um desastre anunciado.

Quase oito meses após a primeira morte por COVID-19 entre o povo Yanomami, a situação de saúde na Terra Indígena Yanomami (TIY) está fora de controle. De acordo com o novo relatório “Xawara: traçando o caminho mortal da COVID-19 e a negligência governamental no Território Yanomami”, lançado nesta quinta-feira, 19 de novembro, e elaborado pela Rede Pró-Yanomami e Ye’kwana (Rede Pró-YY) e pelo Fórum de Liderança Yanomami e Ye’kwana, o número de casos confirmados no território saltou de 335 para 1.202 entre agosto e outubro — um aumento de mais de 250% de casos por mês. Segundo monitoramento realizado pela Rede Pró-YY, ao final de outubro havia 23 mortes suspeitas e confirmadas por COVID-19 entre o povo Yanomami.

Os casos de COVID-19 foram confirmados em 23 das 37 regiões da YIT, localizadas entre os estados de Roraima e Amazonas e onde vivem cerca de 26,7 mil indígenas, incluindo grupos isolados, ainda mais vulneráveis ​​à doença.

O relatório demonstra que 10.000 pessoas, ou mais de um terço da população total, podem já ter sido expostas ao vírus. Desde junho, o Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana pede a remoção dos milhares de garimpeiros ilegais que trabalham no território e são vetores da doença. O novo relatório mostra que os seus receios iniciais eram válidos: as operações mineiras ilegais têm sido uma fonte clara de infecções por COVID-19 no território.

A campanha #MinersOutCovidOut iniciada pelos povos Yanomami e Ye’kwana, que conta com o apoio de aliados brasileiros e internacionais, reuniu mais de 410 mil assinaturas em apoio à luta dos povos indígenas.
A divulgação destes novos números representa o capítulo mais recente de uma história de proporções históricas, sugerindo que o governo do Brasil permitiu e por vezes incentivou atividades que expuseram os povos Yanomami e Ye’kwana à devastação de uma doença mortal, ao mesmo tempo que prejudicam a sua capacidade de proteger as suas terras ancestrais dos garimpeiros ilegais de ouro que devastaram as florestas e envenenaram os rios do norte da Amazónia.

“Dados do Ministério da Saúde indicam que há 11 regiões do TIY onde foram realizados menos de 10 testes pelo DSEI-Y [Yanomami Health District] e outras três onde não foram realizados testes, ou seja, em mais de um terço das regiões há muito pouca informação sobre a chegada da COVID-19, reforçando as afirmações dos indígenas de que na realidade o número de infectados poderia ser muito maior. Essa informação revela ainda que, até meados de setembro, 70,5% dos Os testes realizados pelo Distrito Sanitário Yanomami deram positivo Na região do Demini, por exemplo, uma das mais testadas do território, mais de 90% da população foi infectada pela COVID-19. O número de testes realizados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI) até o dia 23 de outubro em todo o TIJ é insignificante: 1.270 testes foram positivos, negativos ou descartados.

Para Maurício Ye’kwana, diretor da Associação Hutukara Yanomami e porta-voz da campanha, o relatório é um instrumento que esclarece o descaso do governo com a YIT durante a pandemia. Ele afirma que a investigação representa um passo importante “não só para os Yanomami e Ye’kwana, mas para todos os povos indígenas que protegem a nossa Mãe Terra e mantêm a floresta em pé” para poder mostrar às autoridades governamentais a força e a unidade da luta indígena no Brasil. “Temos parceiros que apoiam a nossa luta. Pedimos a retirada urgente dos invasores da nossa terra”, afirmou.

“Queremos entregar este documento às autoridades brasileiras. É um instrumento para denunciar os problemas com a invasão de garimpeiros, a contaminação do meio ambiente, inclusive dos nossos rios, e a contaminação por doenças, como esta xawara [epidemic], que vem matando muita gente”, acrescentou Dário Kopenawa Yanomami, vice-presidente da Hutukara.

Cronograma dos abusos

Além de denunciar o atual descontrole da pandemia na YIT, o relatório apresenta detalhadamente como ela avançou na maior terra indígena do Brasil graças à negligência do governo. Um dos principais trechos do documento é uma cronologia de acontecimentos que ilustram o descaso e a sequência de abusos contra os Yanomami e Ye’kwana ao longo desse período.
Um dos episódios mais dramáticos – que gerou indignação nas redes sociais em junho – foi o desaparecimento, durante quase um mês, de três crianças que morreram com suspeita de COVID-19. Os bebês foram enterrados em um cemitério da capital Boa Vista (RR) sem o conhecimento dos pais ou de representantes do povo Yanomami. Na sua cultura, enterrar os mortos é inaceitável. Apesar da revolta e dos protestos, os restos mortais dos bebês continuam enterrados na capital Roraima, a milhares de quilômetros de suas comunidades.

Em julho, um pouco de teatro governamental marcou o avanço da pandemia no YIT e é detalhado no relatório. Três meses após a primeira morte de um menino Yanomami de 15 anos por COVID-19, o governo federal levou 16 mil comprimidos de cloroquina aos postos de saúde do território, em missão liderada pelo Exército, e doou outros 33 mil comprimidos ao DSEI-Y. As autoridades argumentaram que os comprimidos eram para tratar a malária e não a COVID-19, como afirmado anteriormente pela SESAI. As versões conflitantes sobre o propósito da distribuição massiva de cloroquina também mostraram a explosão da malária no território, que já havia sido denunciada pelas lideranças indígenas como impacto direto da invasão do garimpo.

O novo relatório também traz relatos dos Yanomami e Ye’kwana sobre o avanço da COVID-19 no território. Os depoimentos narram como a pandemia avançou, principalmente devido à mineração de ouro. “Lá dentro não estamos bem. Estamos todos doentes. Nossa floresta adoeceu. Esse é o caminho do mineiro, porque muitos aviões pousam lá. Quando chega um avião, muita gente desce, e como estão chegando muitos aviões, hoje essa doença chegou! É uma doença forte!” disse uma mulher Yanomami de Kayanau, em julho.  Kayanau é a segunda maior área de mineração ilegal do território.

Francisco Yanomami, da região de Marauiá, também alertou sobre a falta de exames: “A gente não era para estar morrendo disso, por causa de uma doença forte, sabe. […] Agora está acontecendo, os sintomas da COVID-19 estão aumentando, está aumentando. O que podemos fazer? Como saber se é mesmo COVID-19? Como saber se é de COVID-19 que estamos morrendo? Temos que saber qual doença está nos matando. Se não tivermos isso teste, não temos como descobrir se esta doença está nos matando!”

A reportagem também conta como o Centro de Saúde Indígena Yanomami (CASAI-Y), em Boa Vista, se tornou o principal polo de contaminação da COVID-19 entre os povos indígenas nos primeiros meses da pandemia. “Não estamos aqui lutando à toa! Vocês, brancos, que estão dentro do Distrito, que trabalham pela saúde, porque pioraram a situação, nos deixaram muito tristes! (…) Por que só estão fazendo mal para nós?”, questionou Gerson Blane, líder do Marakana/Toototopi na época.

Por fim, o relatório traz artigos assinados por especialistas: sobre o desrespeito aos rituais funerários e à cultura Yanomami, do antropólogo francês Bruce Albert; uma radiografia da saúde no YIT, do médico sanitarista Paulo Basta, da Fundação Oswaldo Cruz; e sobre a responsabilidade do Estado brasileiro pela tragédia, dos advogados do ISA Juliana Batista e Luiz Henrique Pecora.
Trabalhando lado a lado com os Yanomami desde 1975, Bruce Albert finaliza sua análise traçando um paralelo entre a profanação dos Yanomami mortos pela COVID-19 e os desaparecimentos políticos durante a ditadura brasileira – ambas expressões de “amnésia coletiva” e apagamento social. E isso perdurou até hoje. “Na verdade, tomar posse dos mortos alheios para apagá-los da memória coletiva e negar o luto de seus familiares sempre foi a marca de uma etapa suprema de barbárie baseada no desprezo e na negação do Outro, étnico e/ou político.”

LEIA O RELATÓRIO COMPLETO AQUI

A campanha #MinersOutCovidOut é uma iniciativa do Fórum de Liderança Yanomami e Ye’kwana e da Associação Yanomami Hutukara (HAY), Associação Wanasseduume Ye’kwana (SEDUUME), Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK), Associação Estadual Texoli Ninam Roraima (TANER), Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes (AYRCA), Associação Kurikama Yanomami (AKY) e Associação Hwenama dos Povos Yanomami de Roraima (HAPYR). A campanha conta com apoio da Coalizão dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), Instituto Socioambiental (ISA), Amazon Watch, Survival International, Greenpeace Brasil, Conectas Direitos Humanos, Anistia Internacional, Rede de Cooperação Amazônica (RCA), Instituto Igarapé, Rainforest Foundation US e Rainforest Foundation Norway. ###

Relatórios

O papel dos intermediários na viabilização do financiamento direto para Povos Indígenas e Comunidades Locais (Publicado pelo Consórcio TICCA)

Histórias

A infraestrutura viva que não podemos mais deixar sem financiamento adequado

Histórias

Conheça a brigada indígena feminina de combate a incêndios que traça um caminho para a resiliência climática na Amazônia brasileira

Relatórios

TREES 3.0: Povos Indígenas e Comunidades Locais conquistam avanços importantes na revisão de padrão líder do mercado de carbono

Histórias de Campo

Receba histórias como estas diretamente na sua caixa de entrada

Inscreva-se para receber atualizações ocasionais, histórias e oportunidades de participar.

Junte-se à Nossa Comunidade

Participe

Pesquisar em nosso site

Pesquisa Rápida

Inscreva-se em nossa lista de e-mails

Receba notícias, atualizações e histórias da floresta tropical — diretamente na sua caixa de entrada.

Junte-se à Nossa Comunidade nas Redes Sociais

This site is registered on wpml.org as a development site. Switch to a production site key to remove this banner.