Comunicados de Imprensa

Fora os mineiros, fora a COVID-19: os povos Yanomami e Ye’Kwana da Amazônia brasileira lançam uma campanha global para expulsar os mineiros de seu território

Líderes indígenas exigem a remoção urgente de 20 mil garimpeiros ilegais de suas terras para evitar a propagação da COVID-19

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PARA LIBERAÇÃO IMEDIATA
11 de junho de 2020

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Os líderes indígenas exigem a remoção urgente de 20.000 garimpeiros ilegais de suas terras para evitar a propagação da COVID-19 em suas aldeias. A doença poderá infectar até 40% das comunidades Yanomami se a mineração ilegal continuar, ameaçando um novo etnocídio.

Estado de Roraima, Brasil – Em uma nova campanha global liderada por uma coalizão de organizações Yanomami e Ye’kwana, os líderes indígenas definem a campanha #MinersOutCovidOut como “um grito de socorro contra um antigo pesadelo que se tornou ainda mais mortal”.  Lançada hoje internacionalmente, a campanha exige que o governo brasileiro remova imediatamente mais de 20 mil garimpeiros que operam ilegalmente no território Yanomami.

“Estamos acompanhando a propagação da COVID-19 em nossa terra e estamos muito tristes com as primeiras mortes dos Yanomami. Nossos xamãs estão trabalhando sem parar contra os xawara”, disse Dario Kopenawa Yanomami, jovem líder de seu povo e vice-presidente da Associação Yanomami Hutukara. “Xawara” é a palavra Yanomami para designar epidemias trazidas por estrangeiros. “Vamos lutar e resistir. Mas precisamos do apoio do povo brasileiro e de todo o mundo”, disse Dario, que é filho de Davi Kopenawa, líder Yanomami e um dos xamãs mais conhecidos da Amazônia.

Os Ye’kwana são um grupo indígena menor que vive ao lado da terra Yanomami. Juntos, eles compreendem um total de 27 mil pessoas dispersas por uma das maiores reservas indígenas do Brasil, que se estende entre os estados de Roraima e Amazonas, abrangendo a fronteira da Venezuela.

A taxa de mortalidade por COVID-19 entre os indígenas é o dobro da taxa do restante da população brasileira. Até o momento, mais de 2.900 indígenas testaram positivo para o novo coronavírus e quase 260 morreram, segundo a Associação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB). A doença já matou quatro Yanomami e há mais 95 casos confirmados entre Yanomami e Ye’kwana.

Aproximadamente metade da população do território Yanomami vive em comunidades a menos de cinco quilômetros (3 milhas) de um local de mineração ilegal. Um novo estudo da ONG brasileira Instituto Socioambiental (ISA) calcula possíveis cenários de taxa de transmissão para essas aldeias (1). Segundo o estudo, em uma região do território Yanomami, um único caso de COVID-19 poderia resultar em 962 novos casos após 120 dias. Na pior das hipóteses, 5.603 Yanomami – 40% da população dessas comunidades – poderiam ser infectados pelo vírus. O estudo também estima que se os garimpeiros ilegais permanecerem, entre 207 e 896 Yanomami poderão morrer em decorrência da COVID-19 – até 6,4% da população dessas áreas. Os Yanomami enfrentam um risco real de etnocídio.
Para evitar uma tragédia, o Fórum de Líderes Yanomami e Ye’kwana (2) está pedindo ao público brasileiro e à comunidade global que assinem uma petição para pressionar as autoridades brasileiras a mobilizar esforços para a remoção completa e imediata dos mineiros do seu território. Dario, um líder Yanomami, é a principal voz da campanha e pretende mobilizar o apoio nacional e global para esta causa crítica.

Infelizmente, a propagação de doenças mortais transmitidas por garimpeiros e outros invasores não é uma ameaça nova para os Yanomami. Nas décadas de 1970 e 80, a abertura de estradas e uma grande corrida do ouro causaram a morte de 13% da população Yanomami, por doenças como malária e sarampo. Muitos idosos ainda carregam a dor dessa lembrança; faz parte da história Yanomami. É incompreensível que, neste momento, milhares de mineiros operem impunemente no território, expondo potencialmente um povo inteiro à COVID19, de uma população já extremamente vulnerável devido ao racismo sistémico e à falta de acesso a recursos de saúde pública.

Segundo o relatório do ISA, os centros de saúde que atendem os Yanomami estão entre os menos equipados de todo o Brasil, pois possuem a menor disponibilidade de leitos e ventiladores. Os centros de saúde mais próximos dos mineiros que invadiram o seu território obtiveram a pior pontuação (3). Não há ventiladores pulmonares na maioria dos municípios amazônicos. A distância média entre as aldeias indígenas e a unidade de terapia intensiva (UTI) mais próxima no Brasil é de 315 quilômetros (196 milhas) e, para 10% das aldeias, essa distância está entre 700-1.079 quilômetros (430-670 milhas). Os Yanomami terão que viajar quase três horas de avião para chegar a Boa Vista caso precisem de uma UTI com ventilador. Não há ligação terrestre ou fluvial entre a vila e a capital Roraima (4).

A campanha tem apoio da Associação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), Instituto Socioambiental (ISA), Survival International, Greenpeace Brasil, Conectas Direitos Humanos, Anistia Internacional Brasil, Rede de Cooperação Amazônica (RCA), Instituto Igarapé, Rainforest Foundation US, Rainforest Foundation Norway e Amazon Watch.

Saiba mais e participe em MinersOutCovidOut.org

Rainforest Foundation US foi fundada há 30 anos para promover os direitos dos povos indígenas que vivem na floresta tropical e para apoiá-los e a outras comunidades florestais em seus esforços para proteger e defender seus territórios. 

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Notas

(1) O estudo foi realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e revisado pela Fundação Oswaldo Cruz de Saúde Pública (Fiocruz).
(2) O Fórum de Liderança Yanomami e Ye’kwana é uma coalizão de organizações que inclui a Associação Yanomami Hutukara (HAY), a Associação Wanasseduume Ye’kwana (SEDUUME), a Associação de Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK), a Associação Texoli Ninam de Roraima (TANER) e a Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes (AYRCA).

(3) O estudo analisou diversas unidades de saúde críticas do território, estimando como poderia acontecer a transmissão da doença nesses locais. Por exemplo, em Surucucu, um representante do Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi) que testou positivo para Covid-19 visitou a área de abrangência da unidade de saúde. Na pior das hipóteses, assumindo a transmissão mais intensa, este único caso na região poderia resultar em 962 novos casos após 120 dias. Se nada fosse feito, isso significaria que 39% da população atendida pelo posto de saúde estaria infectada. Se a taxa de mortalidade fosse duas vezes maior que a da população não indígena, haveria entre 35 e 153 mortes, usando as taxas dos estados de Roraima e Amazonas, respectivamente.

(4) Segundo estudo da organização sem fins lucrativos InfoAmazonia.

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