- A III Marcha das Mulheres Indígenas na capital brasileira, Brasília, reuniu mais de 6.000 mulheres líderes de diversas comunidades indígenas em todo o mundo.
- As mulheres que marcharam apelaram ao mundo para proteger os seus biomas das ameaças que enfrentam atualmente e para trazer à luz questões como a violência contra as mulheres e a igualdade de género.
- Além de apoiar as delegações de mulheres que viajavam para Brasília, a RFUS tinha uma funcionária no local auxiliando as mulheres indígenas de Roraima.
No dia 10 de setembro, mulheres indígenas de todo o mundo se reuniram na capital brasileira, Brasília, para a III Marcha das Mulheres Indígenas, de 11 a 14 de setembro, com o objetivo de aumentar a conscientização sobre as ameaças às terras que representam. O evento reuniu mais de 6 mil mulheres indígenas de todo o Brasil, além da Malásia, Uganda, Estados Unidos, Peru, Quênia, Nova Zelândia, Bangladesh, Rússia, Indonésia, Guatemala e Finlândia.


Para Kelliane Wapichana, 31, a ideia de trabalhar com milhares de representantes de povos indígenas de todo o mundo não é intimidante. Como a mais jovem secretária feminina do Conselho Indígena de Roraima (CIR), ela está acostumada a se organizar além de idiomas e barreiras culturais.
Abrangendo 55.000 pessoas em 10 grupos linguísticos, o CIR é uma das maiores organizações representativas regionais do Brasil. É também um dos mais distantes dos centros de poder, com sede no longínquo estado de Roraima, que fica ao longo da fronteira norte com a Guiana e a Venezuela. É lógico, então, que para Kelliane, um dos maiores desafios na preparação para marchar sobre a capital foi logístico. As viagens de avião de e para a região são caras, com os preços dos bilhetes variando entre 400 dólares e 1200 dólares, estes últimos quase 3x o salário médio mensal na região. A angariação de fundos para transportar uma delegação de 18 líderes regionais é um grande obstáculo. Mas para Kelliane, a oportunidade de se juntar a milhares de mulheres indígenas para marchar na capital não pode ser superestimada.
“As mulheres estão sempre na linha de frente. E quando nos unimos temos uma força enorme para lutar pelo que é nosso” – Kelliane Wapichana
Mulheres no centro do poder
Esta foi a primeira Marcha das Mulheres Indígenas desde a chegada do presidente Lula da Silva em janeiro, e a subsequente nomeação de várias mulheres indígenas para cargos. Entre eles Joenia Wapichana, ex-advogada do CIR, que se tornou a primeira mulher e a primeira pessoa indígena a dirigir a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI), e Sonia Guajajara, a primeira ministra dos Povos Indígenas do Brasil.
Organizado pela Articulação Nacional das Mulheres Guerreiras Ancestrais Indígenas do Brasil (ANMIGA), o programa contou com uma programação diversificada de painéis de discussão, grupos de trabalho, cerimônias interculturais e culminou com uma marcha na capital.
No primeiro dia de programação, Sonia, Joenia e Célia Xacriabá, deputada indígena, convidaram 500 manifestantes indígenas para dentro do Congresso Nacional para um evento histórico.
“Somos extremamente capazes de estar na frente desta sala, de participar nestes diálogos, de nos sentarmos à mesa como iguais e de propor as nossas próprias ideias”, disse Joenia, enquanto o som de maracas cerimoniais e aplausos ricocheteavam nas paredes da câmara baixa.


“No centro desta marcha está um poderoso apelo por direitos iguais para as mulheres indígenas. Essas mulheres enfrentaram inúmeros desafios e injustiças ao longo de suas vidas, mas se recusam a ser silenciadas”
– Articulação Nacional das Mulheres Guerreiras Ancestrais Indígenas do Brasil (ANMIGA)
Uma vila temporária
As mulheres acamparam em um parque público no coração de Brasília, montando suas próprias barracas e compartilhando as refeições com alimentos trazidos de casa – para as mulheres de Roraima, isso significava farinha de mandioca, peixe e carne seca, pimenta e pão de mandioca. O campo tornou-se uma extensa aldeia temporária por direito próprio, um lugar onde as mulheres podiam recarregar as energias entre os eventos e estabelecer contactos umas com as outras. Os adolescentes fumavam cachimbos cerimoniais e cantavam harmonias juntos à noite, e as crianças brincavam na enorme área infantil, que contava com um trampolim muito popular.
Tal como numa aldeia real, quase todas as delegações foram representadas por uma mistura de idosos e jovens. Entre os mais velhos estava Mariana Tobías, uma mulher Macuxi do norte do Brasil.
Desde o dia em que Mariana, 75 anos, nasceu, sua avó sabia que ela seria pajé, ou pajé. Algumas de suas primeiras lembranças são de ter sido ensinada a curar pessoas e evocar visões usando plantas sagradas na Raposa Serra do Sol, o maior território indígena do Brasil.
Além de possuir profundo conhecimento tradicional sobre plantas e espíritos, Pajé Mariana é testemunha de anos de luta e guarda essa história em seu corpo.
“Senti o cano de uma arma bem aqui, contra minhas costelas”, diz ela, apontando para suas costas. Ela viu o interior de uma cela de prisão e curou o marido depois que ele foi baleado por guardas armados contratados por produtores de arroz durante a luta pela titulação do território Raposa Serra do Sol, em 2008. Obter o reconhecimento legal de suas terras é uma luta contínua para os Macuxi e muitos outros povos indígenas em todo o Brasil.
“Quando falamos de Pajé Mariana, estamos falando de uma mulher que nos dá força”, diz Kelliane, também natural da Raposa Serra do Sol. “Para nós, ela é uma grande árvore – uma árvore que nos ensina, que nos aconselha, que nos protege do mal e que nos fortalece com a sua oração.”
“Nada nos foi dado”

No quarto e último dia da marcha, Kelliane perdeu a voz devido a um forte resfriado. O acampamento lotado dificilmente parecia um bom lugar para descansar. Mas entre a oração do Pajé Mariana e os remédios fitoterápicos trazidos de casa, Kelliane se recuperou o suficiente para ficar de pé no meio da multidão e gritar ao microfone, com a voz entrecortada de emoção.
“Nada nos foi dado, tudo foi conquistado. As mulheres que vieram antes de nós enfrentaram balas e morte para conquistar nossos direitos na Constituição, e muitas de nossas lideranças morreram na luta” – Kelliane Wapichana
Entre faixas e cartazes, as mulheres ao seu redor juntaram-se a ela na reivindicação de seus direitos e rejeitaram ameaças legais atuais – como o Projeto de Lei 2903/2023, recentemente aprovado pelo Senado Federal, e o argumento do Marco Temporal, que na semana passada foi rejeitado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
“Estamos acostumados. Não nos cansamos. Não podemos descansar. Porque estamos lutando há muito tempo”, disse Pajé Mariana.
RFUS e CIR: Uma Aliança Forte pelos Direitos Indígenas
Fundado em 1971, o CIR representa os povos indígenas do extremo norte da Amazônia brasileira há mais de cinquenta anos. Desde então, a expansão dos colonos aumentou rapidamente na região, trazendo uma lista completa de ameaças coloniais, incluindo apropriação de terras, extração de recursos, desmatamento, violência e doenças.
A RFUS tem parceria com o CIR há mais de 20 anos, apoiando sua luta pelos direitos à terra e expandindo novas tecnologias para o monitoramento territorial de mais de 5,44 milhões de acres.
Em 2004, a RFUS apoiou o departamento jurídico do CIR – então chefiado por Joenia Wapixana – para entrar com uma ação junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos para a demarcação da Raposa Serra do Sol. Em 2008, Joenia se tornou a primeira advogada indígena a defender este caso perante o Supremo Tribunal Federal.
Além dos direitos à terra e do monitoramento, a RFUS também apoia o CIR por meio de programas de fortalecimento institucional e pelo codesenvolvimento de protocolos de segurança e proteção e planos de contingência que contribuem para a segurança dos defensores ambientais. A RFUS também contou com uma funcionária no local para a III Marcha das Mulheres Indígenas para apoiar a delegação de Roraima.